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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Perfil

 

Cristiano Wardil

(Poeta e espectador do absurdo)

Se me perguntam quem sou, respondo com um bocejo. Sou um transeunte do tempo, um estudante crônico das leis dos homens, um fardo que carrego pelas ruas de Belo Horizonte, e, nas horas vagas da madrugada, um poeta do fastio que me devora a alma.

 

Também sou Bombeiro Militar.

 

Nascido fora de meu tempo, observo este século XXI da janela do meu quarto, sob a pálida luz de um monitor que me serve de lua artificial. Vejo um mundo de alegrias efêmeras, sorrisos fabricados para consumo em redes sociais e uma busca desesperada por um sentido que, ouso dizer, jamais existiu. É um banquete macabro e fascinante, e eu sou apenas um convidado que observa, com um copo de café amargo em mãos, a inevitável decadência de tudo.

 

Minha lira é um teclado gasto. Meus pergaminhos são arquivos de texto perdidos em pastas. Troquei as tabernas ruidosas pelo silêncio dos fones de ouvido e o ópio pela hipnótica sucessão de telas e notícias que prometem tudo e não entregam nada além de mais ansiedade.

 

Minha poesia é o refugo dos meus dias. É o que sobra quando a obrigação do direito adormece e a insônia me toma nos braços. Nela, encontrarão o sarcasmo de quem já não espera nada, a fantasia de quem sonha com virgens pálidas e anjos impossíveis, e a certeza da morte como a única e derradeira paz.

 

Mas também sou outro, sou aquele que ama; que encontrou no amor, despretensiosamente, um cais.  Sou mais o outro do que esse, mas gostaria que o outro escrevesse mais.

 

Quem sabe ele não resolve escrever...