Mortalha de um Vício
Ó vício, flor mórbida, que o peito me inunda!
Nem bom, nem mau, na dor que me circunda.
Se alivia, é por sonho, ópio da mente insana,
Se mata, é só a vida, essa peste mundana.
O bem?
Furtiva sombra que a noite absorve.
E o vício?
Ah, quão pouco ao triste ele serve!
Na podridão dos dias, que tudo corrompe,
Só a dor permanece, e a febre que a rompe.
A vida, ó sepulcro que em si me contém!
E o vício, cruel, comigo, jamais se desdém.
Sem ele, o lençol da morte eu beijaria,
Mas ele, pálido espectro, em mim me prendia.
Eis que vivi, meu fado, por um só vício horrendo:
Viver!
Esta loucura que a alma vai morrendo!
E ao querer-te arrancar, ó praga da existência
Caí no abismo eterno da não convivência.
Longa é a vida!
Oh, desventura imensa!
Este fastio que não tem um fim!
Sem teu torpor, que a dor real compensa,
Seria a morte um grato dom pra mim.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 29/06/2025