A sombra de quem fui
Se o meu ser de outrora fosse o que sou agora, teria o seu labor forjado estas mágoas que,hoje, me assaltam?
Ou, porventura, fora ele um outro, sem demora, de tal modo que, neste instante, outro ser me habitara?
Por que as penas que eu teci, num pretérito incerto, se mostram, hoje, um fardo tão comum, tão alheio?
As dores que me pesam, neste presente aberto, são só o eco baço de quem as moldou, sem freio.
Pois aquele "ele", o artífice, o criador, jaz apenas na poeira
Levada facilmente no mais furtivo soprar dos ventos
E de todas as chagas que a alma descolora, nenhuma iguala o remorso,
Essa ponta que me invade, por ter sido um estranho
Por não ter sido o "eu" que, hoje, na minha própria sombra, me confesso e me padeço.
E a incerteza que me vela, qual neblina densa, é se, sendo eu mesmo, o "eu" de um tempo idos, não teria também gerado esta pungente crença, estas mesmas dores que, hoje, em mim, sinto e vejo, sofridas.
Tal é o desvelar, sombrio, da existência vã:
Um eterno labor de dor, que nunca finda.
Eu, e aquele "ele", e o espectro do que serei amanhã, ambos criamos, ambos sentimos a mesma senda infinda.
Mas, do "ele" de outrora, só a brisa é viva.
Ah, se o meu ser se esvaísse, em vácuo e nada, nenhuma dor, então, lugar teria.
Mas sou, e sou quem sofre, nessa senda desolada, condenado a sentir, a pensar, e a calar.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 30/07/2025