Monólogo da Ausência
O teto é o meu céu, sombrio e parco,
Nesta insónia que a madrugada tece.
E ao fechar os olhos, deixo o meu marco:
A memória do teu cheiro me adormece
Como um travesseiro onde a alma esquece.
Meu leito, este espaço desolado,
Já decorou teu nome em seu vazio.
O lado que deixaste, abandonado,
Guarda um calor que é um eco, um arrepio...
E eu me viro, e só encontro o frio.
Ah, que esta saudade que me invade
Se desfizesse em presença, finalmente.
Que a distância, esta irrealidade,
Morresse num abraço e, de repente,
Fosse o fim do que nos fere e nos mente.
Que o artifício que te mostra e afasta,
Vidro inerte onde teu vulto me alcança,
Cedesse enfim à mão que me afaga,
Trazendo a paz que a minha dor não cansa,
E o fim desta longínqua e vã esperança.
Chega de afetos que a distância cria,
De vozes que não têm corpo nem verdade.
Quero a pele, a tátil heresia
Que anula o tempo e a imensidade,
E a tua voz aqui, não na saudade.
Pois tudo o que a minh'alma anseia,
Mora no ser que tu és, e que eu componho.
O futuro que a minha mente semeia
É o nosso laço, único sonho...
Um amanhã que em teu regresso ponho.
Não há ciência que este mal explique,
Nem bula para a febre que me aterra.
És a doença e a cura, que me implique
Nesta alquimia que me exalta e aterra,
A única paz no meio da minha guerra.
Ah, que este abismo que em nós se fez
Se findasse num abraço... e no começo...
Do nosso laço, de uma só vez,
Pagando à vida o seu devido preço.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 01/08/2025