Pondere a sede
Que o pranto, essa água turva da alma,
Seja vertido no quarto, em muda calma,
Mas no palco da sala, onde a luz mente,
Um sorriso se finja, eternamente.
Pois que sabe da dor quem não a tem?
É fardo que se carrega para ninguém.
A sós, no abismo de ser quem se é,
Vigia o pensamento, essa maré
Que afoga o cais da pálida razão.
Mas com outros, mercadores de ilusão,
Pesa a palavra, essa moeda gasta,
Que nunca compra a alma, só a afasta.
Viemos do nada, sem um fio de linho.
Partiremos ao nada, no mesmo caminho.
E no intervalo,
Lutamos por um palco no deserto,
Por coisas que, na febre de possuir,
Não soubemos trazer, nem hão de ir.
A vida é o ensaio de uma só verdade,
Que a cena final mostra, sem piedade:
O amor se revela no rasgar do véu,
Os irmãos, na partilha do que foi ao céu.
Na tua velhice, o filho é o teu espelho.
E o amigo, no abismo, dá-te o seu aparelho.
Por isso, labuta.
Ergue a pedra, a cal,
Constrói a fortuna, esse oco metal.
Mas guarda um tempo, uma hora que é só tua,
Para sentir a vida, nua e crua.
Pois há o que o ouro não compra, nem a prata:
A sensação de ser, que nos resgata.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 04/08/2025