Lavadeiras virgens grávidas
Tudo começou por conta da sensualidade do rio São Francisco e da libido do Dr. Freud.
Lá estava ela, uma moça risonha e faceira que não declarava seus desejos. Brincava com a correnteza que a levava com a volúpia do velho Chico. Chico egoísta queria levá-la para bem longe e deleitar-se sozinho.
Mas o Chico não sabia que era ela quem estava brincando com ele. Seu corpo moreno, sinuoso como as curvas do Chico, elevava-se, e suas águas, em volume, tentavam agarrar-se à pele macia, deixando um rastro de brilho e desejo.
Foi ali, atrás de um arbusto banhado pelas águas do Chico, que o amor aconteceu. Foi ali que as sementes da tentação, ao caírem no rio, foram levadas. O rio foi fertilizado com o amor daqueles dois, que, juntos há 25 anos, viviam como se fosse a primeira vez.
Muito adiante, lavadeiras virgens lavavam suas trouxas de roupas sujas e vazias de amor. De pernas abertas, agachadas de cócoras, elas lavavam as roupas enquanto o Chico acariciava levemente o pecado. Até então, era só o que ele podia fazer. Mas, desta vez, ele estava cheio de sementes de amor e foi fecundando uma a uma. Era outono.
Uma a uma, as barrigas foram crescendo junto com as fofocas. O exame médico confirmou: era gravidez e não barriga d’água, e elas continuavam virgens. Só o padre ou o pastor poderiam explicar. Para o pastor, era coisa do demônio. Para o padre, um milagre: foram fecundadas pelo Espírito Santo. “Seria o retorno de Jesus junto com os discípulos?”, dizia o padre.
Chegou o verão. A cidade estava agitada. Com terços gastos em tantas rezas, começaram as gritarias de mulheres em parto e os choros de crianças nascendo. Não havia tantas parteiras, e havia apenas um médico. Todas foram levadas para o salão paroquial.
As crianças foram nascendo, e com elas o espanto. Não importava se a mãe era branca, negra, mulata, amarela ou vermelha de vergonha. Todas as crianças tinham a mesma cara. Mas algo inusitado asserenou as línguas prontas para maldizer. Todas as crianças tinham um olhar doce e profundo que despertou um sentimento ainda não experimentado por aquela gente. A religião sempre tem uma explicação. Para o pastor, eram artimanhas do diabo para enganar a todos. Para o padre, eram os discípulos; ainda não era a vez de Jesus.
O tempo se incumbiu de esclarecer parte da verdade. As crianças não eram os discípulos nem o diabo. Mas tinham algo de diferente. Todas elas adoravam o rio São Francisco, não saíam de lá. Comiam, faziam seus deveres de escola, brincavam. Só voltavam para casa para dormir à noite. A alegria era maior quando as mães virgens iam lavar roupa nas águas do Chico. Parecia que mãe, pai e filhos estavam juntos.
O velho Chico agora tinha herdeiros. Herdeiros daquele dia de outono em que dois corpos se uniram e multiplicaram seu amor pelo velho Chico.
Dedicado ao sorriso da minha vida.
Ricardo Wardil
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 12/08/2025