Delírios da espera
De ti, Senhora, espero tantas coisas,
Num delírio que a razão não quis;
Minh'alma em febre as esperanças ousa,
Por um momento para ser feliz.
Espero ver-te o vulto à minha porta,
Trazendo à mão, num gesto de carinho,
Não a bebida... mas a paz da morta
Hora que anseio pálido e sozinho!
Espero, à noite, ver-te no teu leito,
Em véus de linho virginal,
E que a febre que me queima em fogo o peito
Dure mais que um instante de real!
Espero que em meus versos te debruces,
E não me dês um "gosto" frio,
Mas que em teu pranto as mágoas desabotoes
Num soluço que role como um rio!
Espero não rogar por teu cuidado
Como um infante em súplica no chão;
Mas por um gesto teu, um olhar sonhado,
Que me arranque esta inútil cerração!
Espero que de teus olhos, num momento,
Corresse o pranto, não da dor que dou,
Mas da arte que te inspira um sentimento...
De um drama triste que na tela amou!
Espero ver-te em meu gabinete entrar,
Espectro amado, pálida visão!
Não com presentes... Basta-me o teu olhar,
Tua presença que é consolação!
Espero tanto... e a ti nada ofereço,
Senão as ruínas que de mim restou...
O peito exausto onde os sonhos fenecem,
O tédio imenso que me acorrentou.
Espero o gozo do teu corpo nu,
Ópio de um vício... Mas meu sangue é vil!
A febre e o verso em meu delírio cru
Tornaram-me a fronte exangue e sem viril!
Espero tanto... E em mim só se avoluma
O pavor, a descrença, o caos, o medo...
Minh'alma é um livro imerso em negra bruma,
Um indecifrável e funéreo enredo.
Espero tanto... Quando a mim me aterra
A reação que a própria vida exprime...
Pois sei que a mim somente se descerra
A letargia que a esperança oprime.
Ah! Se eu um dia despertasse... morto!
Neste meu leito, sem mais esperar...
Sem ter da noite o fúnebre conforto,
Sem mais em anseio a ti, pálido, sonhar.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 18/08/2025