Não me ames desesperadamente
Não me ames desesperadamente.
Como se eu fosse...
uma estrela-cadente,
uma súbita lágrima incandescente do céu
na noite que não cede.
Não me ames com essa pressa de salvação.
Desespero assim...
me aniquila antes de eu ser.
Porque não tenho pressa de viver.
Há uma dilatação lenta
no tempo que me habita.
Gosto das doses...
não as medidas, mas as que se revelam
no corpo.
Esse corpo que é paisagem, um murmúrio...
As suas curvas.
E o seu lamento.
Um lamento que é quase o som da própria existência.
Acordo tarde, sim.
A luz da manhã... uma afronta.
O café, um ritual para os que já se renderam ao dia.
Há uma preguiça demasiada em meu peito.
Não de músculo, mas de alma.
Uma vontade...
muito menos de ser gente.
A complexidade de se existir... me cansa.
Amar, talvez, seja para os que têm um ofício.
Eu...
eu estou em desemprego essencial.
Meu currículo?
Um papel amassado pelo tempo,
escrito às pressas
por mãos que não eram as minhas.
E eu não conheço as suas vírgulas,
nem os pontos finais que ditam o fim.
Um analfabetismo íntimo.
Meu sexo...
ah, esse pulso.
É parco.
Egoísta demais para que haja o gozo pleno.
Não o meu.
Mas o seu.
Aquela imersão...
em que me perco sem me encontrar.
Por isso me esquivo.
Das curvas alheias.
Não as do corpo, mas as do destino, da entrega.
E capoto nas perguntas...
aquelas primárias,
de que se alimenta o cotidiano.
Até sei o que responder.
Mas há uma renúncia que me pesa.
Uma preguiça de ser quem responde,
de ser quem se explica.
Certa vez,
o quê?
Ousei-me em outro.
Mirei teus olhos. Sim, como quem mira caça.
Mas a fome...
ah, a fome não era minha.
Não a do estômago, mas a do vazio que se aninha na alma.
Não.
Recuei.
Voltei.
Pra casa.
Para o meu próprio silêncio, que é um útero, uma caverna.
Então,
Não me ames desesperadamente.
A investida no amor...
é cara.
Custa a própria pele.
É longa.
E eu só ando em pequenos círculos.
Mínimos passos.
Sobre o próprio lugar.
Mas se...
ainda assim...
o teu furor...
o teu inefável e cego amor...
insistir.
Me ame.
Desesperadamente.
Que eu me dissolva nesse abismo, por um instante.
E que esse instante seja a eternidade de uma morte.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 18/08/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.