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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Ofício da Palavra
Não se fabrica poema em linha de montagem.
Não é produto com data de entrega,
nem a urgência de um telegrama no peito.
É coisa que assenta, teima, fica.
Uma pedra no meio do dia.

Espera-se, não na janela romântica,
mas na cadeira dura da repartição,
sem zelo algum, quase com tédio.

Poema não se cria, essa tolice.

É um amontoado dos dias que fermenta,
um pensamento que tropeça na gente
quando a gente está ocupado, sendo apenas.

A coisa nasce na segunda, um fiapo, um incômodo.
Na terça, vira uma palavra que não serve.
Na quarta, um verso que nasce torto.
Na quinta, a teimosia de existir, sem mim.
Na sexta, ensaia um corpo, precário.
No sábado, se muito, lanço-o ao papel.
Domingo é dia de não ser poeta.

Dizem que a musa sopra, inspiração.
Bobagem!
É o ar que entra, viciado,
e o ar que sai, já gasto.
Eu só respiro, fastidioso.
O poema, por tabela, sobrevive.

CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 20/08/2025
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