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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Aritmética do Amor
Foi numa mesa de pôquer, creio que domingo.
O tédio empilhava as horas como fichas sem valor.
Eu, um amador nesse ofício de blefar contra a vida,
eis que acerto uma mão improvável, um erro da estatística.
Mas o espanto não veio das cartas.
Veio do apoio dela, um dado novo na equação.
O amor, ao que parece, é isto: uma aposta sem fichas na mão .

Ela, essa mulher que não se divide,
que desconhece a geometria das metades.
É matéria inteira, fato consumado.
É o suspiro de quem aposta tudo
numa corrida onde os cavalos estão mancos.

Agora ela me intima a investir no carteado.
Não pelas fichas, essa contabilidade pobre,
mas por um raro espasmo de alegria
que, segundo diz, me deforma o rosto.
E isso, para ela, tem grande importância.

Os domingos, antes vagos e sombrios,
ganharam um protocolo, um método.
O pôquer virou a desculpa burocrática
e o sorriso dela, ao fim da tarde,
o único lucro real
deste estranho expediente de existir
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 24/08/2025
Alterado em 24/08/2025
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