A substância da Saudade
Então somos, enfim, a própria Saudade.
Não a que o tempo leva, transitória,
Mas a que se faz morada e propriedade,
E se inscreve na alma como uma história.
É a dúvida que paira, permanente,
Sobre o peito nu de quem se entrega ao destino.
Um hóspede que se instala, e docemente,
Nos diz que o nosso lar é o tempo passado.
E resta a cisma, o dilema que me invade:
Serei eu, a Saudade, em sua essência,
Ou a Saudade, um órgão que me invade,
Condicionando a minha existência?
Se eu sou a própria Saudade, que eu não parta.
Que eu fique, eterno, neste sentir que sou.
Mas se ela é parte de mim, é ela que aparta
O tempo em que meu ser no teu parou.
Afinal, o meu peito já pedia
Este descompasso, esta síncope final.
Antes, era um relógio em monotonia,
Um autómato baço, sem bem nem mal.
Só existia, sem dor nem alegria.
E em ti, eu aprendi a ter cadência.
Marco o passo no teu, lado a lado.
És o crisol, a fórmula, a ciência
Em que o meu ser é morto e recriado.
Bebo de ti o veneno que me salva,
E me embriago desta lúcida agonia.
Mato o "eu" que em mim antes grassava.
Mas não mato a Saudade.
Essa, é a alquimia!
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 21/09/2025
Alterado em 05/08/2026