Meus pés clamam por ti
Das brisas que percorrem o mundo,
pouco me conquista o que é simples e exterior.
O mar tem a sua antiga potestade de seduzir,
e a relva, ainda úmida do orvalho,
possui essa delicadeza breve
com que a manhã finge ser eterna.
Mas eu, que já me habituei ao prodígio,
não me deixo mais surpreender
nem pelas ondas,
nem pelo perfume casto da água sobre a terra,
nem por essa liturgia humilde
das coisas que se dizem belas sem o saberem.
E o digo com a serenidade dos que envelhecem por dentro:
nenhuma dessas auras,
nenhum desses milagres discretos do mundo,
se aproxima sequer
do toque das tuas palmas
quando, vencido da fadiga e do labor,
me chamas de novo à vida
com a suavidade de um gesto certo.
Por vezes, confesso, hesito:
não sei se o encanto está no toque
ou nesse sorriso de canto,
quase secreto, quase ausente,
com que velas pelo teu bem amado
como quem guarda uma chama
contra a noite e contra o tempo.
Eu,
este que vos fala
com a gravidade de quem se reconhece e se desfia,
sou como alguém que se deita em mar aberto
com a estranha certeza
de que nenhuma onda o há de virar,
nem o frio do orvalho,
nem a aspereza da mais distante restinga
me alcançarão o coração.
És um calor de verão brasileiro
misturado ao doce recolhimento de um inverno europeu:
uma harmonia impossível e, por isso mesmo, verdadeira.
És a certeza do equilibrista que não vacila,
e o espanto do mágico que, guardando seus segredos,
faz do mistério a sua forma mais pura de verdade.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 24/03/2026
Alterado em 05/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.