Estetoscópios
Se teus ouvidos fossem estetoscópios,
ouvirias-me.
Ouvirias-me te chamando
sessenta vezes por minuto,
ao amanhecer,
quando o dia ainda é só um ser ensaiando existir.
Depois de um beijo teu,
eu te chamaria mais.
Cem vezes por minuto, talvez.
Ou mais,
porque beijo não conta direito:
beijo desorganiza o número,
embaralha o verbo,
faz do coração um erro bonito.
Na despedida de uma viagem,
talvez cento e vinte.
Talvez o dobro do que a medicina permitiria.
Porque há partidas que conjugam o corpo
no modo imperfeito
e nos deixam assim,
no meio da frase,
sem ponto final, sem defesa.
E, certamente, quando meu corpo se encaixa ao teu,
como se a pele reconhecesse, faminta, a curva exata do desejo
e o contato entre nós se desse em fricção lenta, úmida, inevitável,
eu te chamaria cento e sessenta vezes por minuto,
ou numa frequência sem nome,
dessas que a língua tenta medir
e falha com elegância.
Minha diástole e minha sístole
são só uma espécie de pessoa
dentro de mim,
insistindo em bater.
São sigmas,
símbolos em febre,
sinais que não se contentam em ser sinais.
E tu
és meu significado e significante,
meu conceito definido
antes mesmo que eu aprendesse a dizer o que sou.
Tu és essa sonoridade
que não se escreve direito
e ainda assim me escreve.
Tum tum.
Tum tum.
Sou eu
te chamando
com a gramática desarrumada
e o coração em estado de linguagem.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 14/04/2026
Alterado em 14/04/2026
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