O Homem que Nunca Soube Respirar
Houve um rapaz, ou talvez apenas a sombra de um,
que desconheceu o amor como quem ignora a própria morte.
Criança ainda, quando a vida lhe oferecia seus enigmas,
ele aprendera apenas das coisas: seus pesos, suas superfícies,
a frieza das moedas, a banalidade do que se pode tocar.
Do amor, porém, nada.
Nem mesmo o silêncio que o precede.
Quando tentou o afeto, fê-lo por caminhos tortos,
Amou escasso, amou o erro, amou o vão;
Amou-se a si mesmo, e nesse espelho morto,
Encontrou apenas a própria solidão.
Pois quem se ama a si, no círculo do ego,
Devora o objeto antes de o poder tocar;
Se amasse a ela, com seu abraço cego,
Esmagaria o amor por falta de lugar.
Porque o amor, compreendeu tarde, é um pulmão que respira por dois.
Exige espaço, aquele vazio necessário entre os corpos,
aquela distância que é, paradoxalmente, proximidade.
Não suporta o aperto, a sufocação, o desejo que não deixa ar.
É preciso expirar para que ele exista,
largar o que se prende, soltar o que se quer reter.
Mas ele, esse homem que nunca foi homem,
só sabia inspirar.
Puxava o ar como quem teme a falta,
como quem não compreende que morrer é também respirar.
E assim permaneceu: cheio de si, vazio de outro,
respirando num vácuo que ele próprio criara,
procurando o ar em lugares onde só havia ele.
Então nunca amou.
Respirava demais, ofegante,
sem saber que o ar verdadeiro
habita nos pulmões dos que sabem se calar.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 17/06/2026
Alterado em 17/06/2026