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Cristiano Wardil
É no cemitério da vida que a alma floresce
Textos
Não trate o amor como uma adega
Amar é uma brutalidade que exige a gravidade da terra.
Quem flutua não ama; apenas teme a vertigem.
Digo isso com a lucidez descomunal e silenciosa das manhãs.
Não por vaidade,
A vaidade é a máscara dos que não sentem,
mas porque a sola dos meus pés toca o chão
com a mesma gravidade com que a tua existência me toca.

É um estado de graça e de sangue.
Minhas veias já não me pertencem:
são o percurso ininterrupto de um vinho espesso,
um líquido rubro que carrega o cheiro exato de você.

Eu, que já pronunciei o amor em outras madrugadas,
sei que parece um delírio afirmar que agora, e só agora, é o instante verdadeiro.
Mas o é!
É de uma obviedade que me assusta e me acorda.

Amamos justamente porque a luz nos conduz a abrir os olhos.
O vinho guardado na escuridão da adega é uma promessa morta.
A perfeição do intocado sempre me enojou.
O que importa é o líquido derramado, a taça manchada, a urgência da partilha.

Quem espera o momento exato para sorver a vida,
apodrece junto com a própria espera.
É uma fome que se recusa a morrer,
um gozo adiado que se transforma em pó.

A claridade do dia expõe tudo.
Eu já abri garrafas antes da hora,
na pressa cega de engolir o que eu ainda não compreendia,
derramando expectativas sobre mesas vazias,
num romantismo inútil, quase triste.

Mas hoje, não.
O meu "eu te amo" não é um tesouro escondido no escuro.
Ele é o peso desmedido e maravilhoso do meu corpo contra o mundo.
Está nos calos ásperos que me lembram o quanto caminhei até aqui.
E, ao finalmente sentir a aspereza do chão,
eu entendi o mistério da uva esmagada.
Mas, acima de tudo, entendi a coragem nua de amar,
De te amar.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 17/06/2026
Alterado em 17/06/2026
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