Nenhum trocado basta
Não me permito ser alheio à invisibilidade do outro.
Não!
E não porque sinta culpa,
Como se alguma escritura vendesse meu lugar ao céu.
Não é isso. Não é.
É que eu sinto.
Sinto muito.
E o que sinto é um imperativo.
Uma coisa que vem de antes de mim e me obriga.
Uma incapacidade de ver-me inerte diante do fardo do outro.
Inerte não. O corpo não permite.
Nessa minha visão,
O outro passa a ser eu enquanto dura sua visibilidade,
Só enquanto dura. Depois é o que é.
Normalmente alguns trocados costumam aliviar esse sentir.
Aliviam.
Mas a culpa é de não poder fazer mais.
De não poder fazer amanhã.
E amanhã ele já terá tornado à invisibilidade.
Ou ainda, torna-a tão logo vira a esquina.
Vira a esquina e some. E eu o guardo.
Na mente, rumino.
Rumino o que poderia ter feito de melhor para aliviá-lo.
Mas no fim — e há sempre um fim — quem se alivia é somente eu.
Somente eu.
Porque o fardo carregado a vida inteira,
Sem esperança de ser posto ao lado
Perde o peso.
Perde o peso nas mãos de quem não o carrega.
E o outro caminha por força da física.
Caminha porque é corpo. E o corpo vai. Sempre vai.
Então essa hipocrisia — essa coisa que chamo de compaixão — é, na verdade,
e eu o digo com a nudez que me resta,
tão somente a minha necessidade de me ver feliz.
De me ver feliz,
Quando me comparo ao outro,
Que tem pouco e eu, muito.
E isso não é felicidade.
Não é. Não é.
CRISTIANO WARDIL
Enviado por CRISTIANO WARDIL em 05/08/2026
Alterado em 05/08/2026